Veículos Investidores russos vieram ao Brasil em busca de fornecedores de peças para a linha do Uruguai

 

O russo Niva finalmente volta ao Brasil

Marli Olmos, De São Paulo

 

Foto: Rogério Assis/Fotosite/Valor

 

Sazhin: de Moscou para Montevidéu para cuidar da operação no Mercosul

 

O Niva, o jipe da marca russa Lada, vai voltar ao mercado brasileiro neste ano. Desta vez, pelas mãos dos próprios russos. E será importado do Uruguai, num acordo operacional entre a empresa de trading russa Rusia Automotriz e a uruguaia Oferol.

A pitoresca operação para resgatar o veículo que invadiu o Brasil logo depois da abertura do mercado, no início do anos 90, é a forma que os russos encontraram para também aproveitar os benefícios do Mercosul.

No dia 29 de dezembro, a Rusia Automotriz, que já tem outros acordos com a Avtovaz, fabricante da linha Lada na Rússia, assinou contrato para começar a produzir o jipe Niva em Montevidéu, nas instalações de uma montadora local, a partir de julho ou agosto.

A montadora que abrigará a produção do jipe é a Oferol, empresa uruguaia que já tem parceria com a francesa Citroën. É de lá que saem os automóveis Xsara vendidos no Brasil. A Rusia Automotriz investirá US$ 50 milhões na primeira fase do projeto.

O vice-presidente da Rusia Automotriz, Alexander Sazhin, passou pelo Brasil na semana passada em busca de fornecedores de peças. Antes de embarcar de volta a Moscou, o executivo disse ao Valor que 60% dos componentes do Niva que será fabricado no Uruguai serão importados da Rússia. O restante vai ser comprado no Mercosul. O Brasil é grande candidato a fornecer as autopeças do veículo porque estão aqui as maiores empresas de componentes automotivos.

"Precisamos de pneus, rodas, vidros e bancos", diz Sazhin, que está em vias de mudança para Montevideu para cuidar da nova operação russa no Mercosul. O motor do veículo também sairá da região. Segundo ele, está praticamente fechada a compra de motor 1.6 a diesel da Argentina, porque esse modelo já foi homologado pela Avtovaz, montadora formada por 50% de capital do governo russo e o restante de investidores que aplicam na bolsa de valores.

A empresa também procura uma companhia que a ajude na distribuição dos veículos no Brasil. Sazhin calcula que o mercado brasileiro absorverá metade dos 10 mil veículos que deverão ser produzidos anualmente no Uruguai.

Para a Argentina - um mercado no qual os russos continuam apostando - poderão ir 2 mil veículos por ano assim que a demanda se normalizar. O restante será vendido nos demais mercados da América do Sul.

Sazhin não revela os preços do Niva, embora seja esse o principal fator do sucesso ou do fracasso da volta do modelo ao Brasil. Ele garante, porém, que será um veículo de baixo custo, voltado principalmente para as regiões sem asfalto ou rodovias em más condições.

Apostando que também vai atrair a atenção dos jovens que gostam da lama, Sazhin diz que o Niva poderá ser oferecido com motor a gasolina. O motor para esta versão pode sair do Brasil.

Ele também promete que desta vez o Niva não será vendido apenas nas cores vermelha ou branca, como aconteceu na primeira leva da importação. Naquele tempo, a Avtovaz passava por uma transição de empresa predominantemente estatal. "Faremos os veículos na cor que o consumidor quiser", garante.

O presidente da Rusia Automotriz, Viktor Zharov, também passou pelo Brasil e visitou o Sindicato Nacional da Indústria de Componentes Automotivos (Sindipeças). Zharov prefere não aparecer publicamente. Mas a presença dos russos difere das tantas tentativas da Lada de deslanchar no Brasil.

Na primeira fase de importação, a idéia de vender carros rústicos e baratos foi derrubada pelo aumento das alíquotas do Imposto de Importação. "É inviável trazermos esse veículo da Rússia", destaca Sazhin.

Depois disso, uma empresa instalada no Panamá tentou distribuir o veículo no mercado brasileiro. Conseguiu enviar apenas 16 unidades há dois anos. A última tentativa veio de três empresários brasileiros que tentaram captar incentivos do governo para instalar uma linha de montagem no Espírito Santo.

Fonte: Jornal Valor Econômico – 04/02/2002