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O Globo
Quarta-feira, 17 de abril de 2002
Sinais de fumaça
Marcelo Moura
O exame de emissão de gases poluentes não é novidade para os motoristas do Rio de Janeiro. Pelo menos, não deveria ser. Desde 1997, o teste era feito em caráter educativo: quem poluía demais recebia uma advertência escrita, mas emplacava o carro do mesmo jeito. No dia 21 de março, as regras mudaram um pouco: agora o exame pode reprovar carros de uso intenso, como ônibus, vans e táxis. Bastaram alguns dias de vistoria levada a sério para revelar problemas que passaram despercebidos em cinco anos de exame obrigatório. Constatou-se que motoristas e vistoriadores ainda não sabem cumprir seus papéis, que os catalisadores têm sua manutenção negligenciada e que o gás natural (GNV) pode poluir mais que a gasolina.
— Agora que o teste reprova, várias falhas que existiam começam a aparecer de forma mais complicada — diz Adilson Penha, técnico ambiental da Feema, órgão responsável pela vistoria que é feita pelo Detran. — O Rio de Janeiro é pioneiro na inspeção de gases poluentes, por isso a gente ainda apanha um pouco.
1- Nem todo motorista sabe passar pela vistoria
O motorista chega ao posto do Detran, vê uma fila à frente e, em nome do silêncio e da economia, resolve esperar com o carro desligado. Parece a atitude certa, mas não é. Assim, o motor esfria e fica inadequado para o exame de gases poluentes. Antes de começar o teste, será preciso aquecer o carro por alguns minutos, atrasando a fila inteira.
— Faça de conta que está num congestionamento e deixe o motor ligado — aconselha Penha. — Os postos do Detran são bastante arejados, a fumaça é dispersada facilmente.
Quem não quiser queimar combustível na fila pode ligar o motor quando houver cinco carros à frente, dez minutos antes do teste. Ao deixar o carro ligado, o motorista apressa a fila e evita erros dos vistoriadores. Sim, porque às vezes eles também falham.
2- Nem todo vistoriador sabe fazer a vistoria
Erros acontecem em qualquer ambiente de trabalho. Na vistoria do Detran, alguns deles podem prejudicar o motorista. Para evitar problemas no teste de gases, a Feema diz que tem conversado quinzenalmente com o Detran e se esforçado para aperfeiçoar as máquinas de teste. Uma equipe de 40 estagiários faz cartazes educativos e visita os postos para ajudar na fiscalização.
— Tinha vistoriador que fechava curto-circuito na máquina para enganar o sensor de temperatura e começar o teste antes de o carro aquecer — conta Adilson. — Estamos mudando o sistema de medição para impedir irregularidades. Hoje, se o termômetro esquentar rápido ou devagar demais, a máquina se recusa a continuar o exame.
Kit gás incompleto dificilmente passa na vistoria de emissão de poluentes
Ninguém leva na esportiva a reprovação na inspeção de gases poluentes. É natural. Ao não passar na vistoria, taxistas e motoristas de van ficam impedidos de legalizar seu ganha-pão. O pior é ser reprovado e não entender o porquê.
— Alguns motoristas argumentam, revoltados, que acabaram de regular o motor — diz Adilson Penha, técnico ambiental da Feema.
A causa da poluição excessiva nem sempre está na regulagem do motor. O rol de suspeitos é extenso. A culpa pode ser da gasolina ou de folgas do motor. Há ainda componentes insuspeitos, como o catalisador e o kit gás.
3- Nem todo kit gás polui menos que a gasolina
O GNV é um combustível limpo, certo? Não necessariamente. O índice de carros a gás reprovados pelo Detran tem sido alto.
— Os carros são aprovados num combustível mas reprovados no outro — diz Penha.
Procurando explicações para o problema, a Feema chegou aos estudos do professor Carlos Belchior, do laboratório de máquinas térmicas da Coppe-UFRJ.
Belchior testou quatro kits de conversão a gás numa Saveiro a gasolina. Todos foram aprovados no exame de poluentes quando estavam completos. Três deles, no entanto, não passaram quando foram testados sem o emulador, conhecido como regulador de avanço ou motor de passo.
Sem o emulador, a adaptação para o GNV fica mais barata. É o chamado kit incompleto, que custa 30% menos.
— O emulador adapta o motor aos dois combustíveis. Ele não melhora muito o desempenho nem o consumo do carro, mas reduz o nível de poluição — diz Belchior. — Sem o emulador, o GNV chega a poluir mais que a gasolina.
Para transformar o kit parcial em completo, basta instalar o emulador.
4- Nem todo catalisador reduz a poluição
Para muita gente, isso é novidade: o catalisador, aquele bujão cheio de ranhuras preso no escapamento, perde eficiência com o tempo.
— Os cinco anos de vistoria de poluentes mostram a superioridade dos carros com catalisador, mas mostram também que os motoristas não cuidam dele — diz Celso Bredariol, diretor de planejamento ambiental da Feema.
O catalisador original tem garantia de 80 mil quilômetros. Ele quase sempre chega ao fim da vida de forma discreta, sem atrapalhar o rendimento do motor ou fazer barulho. A única evidência é a maior poluição. Para trocá-lo por um novo, paga-se mais de R$ 300.
— O catalisador é caro por causa da cerâmica em seu interior. Ela tem paládio e ródio, materiais mais caros que o ouro — diz Lídio Bartsch, gerente de qualidade da Vanzin.
O preço alto atrai aproveitadores. Bartsch estima que 80% dos catalisadores vendidos no mercado de reposição sejam inúteis. É difícil não levar gato por lebre.
— Tem uma cerâmica falsificada que não filtra nada, mas é tão parecida com a verdadeira que eu não consigo identificá-la — diz o gerente.
A solução chegará em dois meses, quando os catalisadores terão certificado do Inmetro. Por enquanto, a saída é pedir nota fiscal.
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